R. C. Sproul
"Por causa disto é que vos tenho dito: Ninguém
poderá vir a mim se pelo Pai não lhe for concedido" (Jo 6.65).
Um dos ensinamentos mais importantes de Jesus sobre
este assunto é encontrado no Evangelho de João.
"Por causa disto é que vos tenho dito: Ninguém
poderá vir a mim se pelo Pai não lhe for concedido" (Jo 6.65).
Vamos olhar de perto para este versículo.
O primeiro elemento do
ensinamento é uma negativa
universal. A palavra
"ninguém" é completamente inclusiva. Não permite nenhuma exceção além
das exceções que Jesus acrescenta.
A próxima palavra é crucial. É
a palavra poderá. Isto
tem a ver com capacidade, e não com permissão. Nesta passagem Jesus não está
dizendo: "Não é permitido que
ninguém venha a mim". Ele está dizendo, "Ninguém é capaz de vira mim."
A palavra seguinte na passagem é
também vital: "Se".
Refere-se ao que chamamos de condição
necessária. Uma condição necessária refere-se a algo que precisa
acontecer antes que outra coisa possa acontecer. O significado das palavras de
Jesus é claro. “Nenhum ser humano tem a
possibilidade de poder vir a Cristo a menos que aconteça alguma coisa que torne
possível que ele venha”.
Essa condição necessária que
Jesus declara é que "lhe seja concedido pelo Pai".
Jesus está dizendo aqui que a capacidade de vir a Ele é um dom de Deus. O homem
não tem capacidade em si mesmo e de si mesmo para vir a Cristo. Deus precisa
fazer alguma coisa antes.
A passagem ensina pelo menos isto: Não está dentro
da capacidade natural do homem decaído vir a Cristo por si próprio, sem algum
tipo de assistência divina. Pelo menos até este ponto, Edwards e Agostinho
estão em sólida concordância com o ensinamento de nosso Senhor.
A
pergunta que permanece é esta: Deus dá a capacidade
de vir a Jesus a todos os homens? A visão reformada da predestinação diz que
não. Algumas outras visões da predestinação dizem que sim. Porém uma coisa é
certa: o homem não pode fazê-lo por seu próprio poder, sem algum tipo de ajuda
de Deus.
Que tipo de ajuda é requerido? Até onde Deus
precisa ir para vencer nossa capacidade natural de vir a Cristo? Uma evidência
é encontrada em outro lugar, neste mesmo capítulo. De fato, há duas outras
declarações de Jesus que têm relação direta com esta questão.
Anteriormente, no capítulo 6 do Evangelho de João,
Jesus faz uma declaração similar. Ele diz:
"Ninguém
pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer"
(Jo 6.44).
A palavra chave aqui é trouxer. O
que significa para o Pai trazer pessoas a Cristo? A palavra grega usada aqui é elko. O Dicionário
Teológico do Novo Testamento, de Kittel, define-a como significando compelir por irresistível superioridade.
Lingüisticamente e lexicograficamente, a palavra significa
"compelir".
Compelir é um conceito muito mais vigoroso do
que cortejar. Para enxergar mais claramente, vamos dar uma olhada em duas
outras passagens do Novo Testamento onde a mesma palavra grega é usada. Em
Tiago 2.6, lemos:
"Entretanto,
vós outros menosprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem, e não são
eles que vos arrastam para os tribunais?"
Adivinhe qual palavra nesta passagem é a
mesma palavra grega que em outros lugares está traduzida por trazer. É
a palavra arrastar. Vamos agora substituir este texto pela palavra convidar. Ficaria
assim: "Não são os ricos que vos
oprimem e vos convidam para
tribunais?"
O mesmo ocorre em Atos 16.19. "Vendo os seus senhores que se lhes desfizera a esperança do
lucro, agarrando em Paulo e Silas, os arrastaram para a praça, à presença das autoridades."
Novamente, tente substituir a palavra arrastar pela
palavra convidar. Paulo e Silas não foram agarrados e então
convidados para irem à praça.
Uma vez me convidaram para debater a doutrina da
predestinação num fórum público, num seminário arminiano. Meu opositor era o
chefe do departamento de Novo Testamento do seminário. Num ponto crucial do
debate, concentramos nossa atenção na passagem a respeito do Pai atraindo
pessoas.
Meu opositor foi quem trouxe a passagem, como prova
para dar suporte à sua alegação de que Deus nunca força ou compele ninguém a
vir a Cristo. Ele insistia que a divina influência sobre o homem decaído era
restrita à atração, que ele interpretava como tendo o significado de convite.
Nesse ponto do debate rapidamente me referi a
Kittel e às outras passagens do Novo Testamento que traduzem a palavra
como arrastar. Estava certo de tê-lo vencido. Estava certo de
que ele havia entrado numa dificuldade insolúvel para sua própria posição. Mas
ele me surpreendeu. Ele me pegou completamente desprevenido. Jamais me
esquecerei daquele momento agonizante em que ele citou uma referência de um
obscuro poeta grego em que a mesma palavra grega era usada para descrever a
ação de tirar água de um poço. Ele olhou para mim e disse: "Bem, professor
Sproul, alguém arrasta água de um poço?" Imediatamente a audiência
explodiu em gargalhadas por causa da surpreendente revelação do significado
alternativo da palavra grega. Eu fiquei ali, parecendo um pouco tolo. Quando as
risadas cessaram, repliquei: "Não, senhor. Tenho de admitir que nós não
arrastamos água de um poço. Mas, como conseguimos água de um poço? Nós a
convidamos? Ficamos em cima do poço e gritamos: "Aqui, água, vem,
água?" É tão necessário que Deus venha a nossos corações para nos voltar
em direção a Cristo, como é para nós colocar o balde na água e
puxá-lo para fora, se quisermos algo para beber. A água simplesmente não virá
por si própria, respondendo a um mero convite externo.
Por mais cruciais que sejam estas passagens do
Evangelho de João, elas não ultrapassam em importância um outro ensinamento de
Jesus no mesmo Evangelho, com respeito à incapacidade moral do homem. Estou
pensando na famosa discussão que Jesus teve com Nicodemos em João 3. Jesus
disse a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não
nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo 3.3).
Dois versículos depois Jesus repete o ensinamento: "Em verdade, em verdade vos digo: Quem
não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus".
Aqui
encontramos a expressão chave Quem não... Jesus
está declarando uma precondição necessária e enfática para a capacidade de
qualquer ser humano de ver e entrar no Reino de Deus. Essa precondição enfática
é o renascimento espiritual. A visão reformada da predestinação ensina que,
antes que uma pessoa escolha Cristo, seu coração precisa ser mudado. Ela
precisa nascer de novo. As visões não reformadas ensinam que as pessoas
decaídas primeiro escolhem Cristo e depois nascem de novo. Aqui encontramos
pessoas não regeneradas vendo e entrando no Reino de Deus. No momento em que
uma pessoa recebe Cristo, ela está no reino. Não é primeiro crer, e depois se
tornar renascido, e então ser introduzido no reino. Como pode um homem escolher
um reino que não pode ver? Como pode um homem entrar no reino sem primeiro ser
renascido? Jesus estava apontando para a necessidade de Nicodemos de ser
nascido do Espírito. Ele estava na carne. A carne produz somente carne. A
carne, disse Jesus, não tem nenhum proveito.
Como Lutero argumentava: "Isso não significa pouca coisa". As
visões não reformadas mostram pessoas respondendo a Cristo sem serem
renascidas. Estão ainda na carne. Para as visões não reformadas, a carne não só
tem algum proveito, como tem o proveito da coisa mais importante que uma pessoa
poderia ganhar - a entrada no reino através de crer em Cristo. Se uma pessoa
que ainda está na carne, que ainda não é renascida pelo poder do Espírito
Santo, pode inclinar-se ou dispor-se a Cristo, para que o renascimento?
Esta é a falha fatal das visões não reformadas. Elas falham em levar a
sério a incapacidade moral do homem, a impotência moral da carne.
Um ponto cardeal da teologia reformada é a
máxima: "A regeneração precede à fé". Nossa natureza é tão corrupta,
o poder do pecado é tão grande que, a menos que Deus faça uma obra sobrenatural
em nossas almas, nunca vamos escolher Cristo. Não cremos para sermos nascidos
de novo; somos nascidos de novo para que possamos crer.
É irônico que no mesmo capítulo, aliás no mesmo
contexto no qual nosso Salvador ensina a absoluta necessidade do renascimento,
até mesmo para ver o reino, e quanto mais para escolhê-lo, as visões modernas
encontram uma de suas principais provas para argumentar que o homem decaído
conserva uma pequena ilha de habilidade para escolher Cristo. E João 3.16: "...Deus
amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo o que
nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna".
O que este famoso versículo ensina a respeito da
capacidade que o homem decaído tem de escolher Cristo? A resposta, simplesmente,
é nada. O argumento usado pelos não reformados é que o texto
ensina que todas as pessoas no mundo têm em seu poder aceitar ou rejeitar
Cristo. Uma olhada cuidadosa no texto revela, contudo, que ele não ensina nada
desse tipo. O que o texto ensina é que todo o que crê em Cristo será salvo.
Quem fizer A (crer) receberá B (vida eterna). O texto não diz nada,
absolutamente nada, sobre quem vai crer. Não diz nada sobre a capacidade moral
natural do homem decaído. Os reformados e os não reformados crêem, ambos, de
coração, que todos os que crerem serão salvos. Eles discordam, de coração,
sobre quem tem a capacidade de escolher.
Alguns podem responder: "Tudo bem. O texto não
ensina explicitamente que os homens decaídos têm a capacidade
de escolher Cristo sem ser primeiro renascidos, mas isto certamente está implícito'1'.
Não estou querendo conceder que o texto chegue mesmo a ter tal coisa implícita.
Contudo, mesmo que tivesse, não faria nenhuma diferença no debate. Por que não?
Nossa regra para interpretar a Escritura é que as implicações extraídas da
Escritura precisam sempre estar subordinadas aos ensinamentos explícitos dela.
Não devemos nunca, nunca, nunca, reverter isto e subordinar os ensinamentos
explícitos da Escritura a possíveis implicações extraídas dela. Este regra é
compartilhada tanto pelos pensadores reformados como pelos não reformados.
Se João 3.16 implicasse numa capacidade humana
natural universal do homem decaído para escolher Cristo, então essa implicação
seria varrida pelo ensinamento contrário explícito de Jesus. Já temos mostrado
que Jesus explicitamente e sem ambigüidade ensinou que nenhum homem tem a
capacidade de vir a Ele sem que Deus faça alguma coisa para dar-lhe essa capacidade,
atraindo-o.
O homem decaído é carne. Na carne ele não pode
fazer nada para agradar a Deus. Paulo declara: "Por isso, o pendor da
carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar.
Porquanto o que está na carne não pode agradar a Deus" (Rm
8.7,8).
Perguntamos então: "Quem são aqueles que estão
na carne?" Paulo continua declarando: "Vós, porém, não estais na
carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós..."
(Rm 8.9). A palavra crucial aqui é "se". O que distingue aqueles que
estão na carne daqueles que não estão é a habitação interior do Espírito Santo.
Ninguém que não é renascido é habitado interiormente por Deus o Espírito Santo.
Pessoas que estão na carne não foram renascidas. A menos que sejam primeiro
renascidas, nascidas do Espírito Santo, elas não podem estar sujeitas à lei de
Deus. Não podem agradar a Deus.
Deus nos ordena que creiamos em Cristo. Ele se
agrada daqueles que escolhem Cristo. Se pessoas não regeneradas pudessem
escolher Cristo, então elas poderiam estar sujeitas a pelo menos uma das ordens
de Deus, e poderiam ao menos fazer alguma coisa que fosse agradável a Deus. Se
fosse assim, então o apóstolo teria errado aqui ao insistir que aqueles que
estão na carne não podem nem estar sujeitos a Deus nem agradá-lo.
Concluímos que o homem decaído é ainda livre para
escolher ,0 que deseja, mas, porque seus sentimentos são maus, falta-lhe a
capacidade moral de vir a Cristo. Enquanto ele permanecer na carne, não
regenerado, nunca escolherá Cristo. Ele não pode escolher Cristo precisamente
porque não pode agir contra sua própria vontade. Ele não tem desejo por Cristo.
Ele não pode escolher o que não deseja. Sua queda é grande. É tão grande que
somente a graça efetiva de Deus operando em seu coração pode trazê-lo à fé.

O Verdadeiro Evangelho
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