Charles Haddon
Spurgeon
É
uma grande coisa já começar a vida Cristã crendo em boa e sólida doutrina.
Algumas pessoas têm recebido vinte diferentes "evangelhos" neste
mesmo número de anos; e quantos mais irão aceitar antes que sua jornada termine
é difícil de dizer. Dou graças a Deus por Ele logo cedo ter me ensinado o
evangelho, e tenho estado tão perfeitamente satisfeito com ele, que não quero
conhecer nenhum outro.
Porque,
se eu cresse no que alguns pregam sobre uma salvação temporária, e sem
importância, que somente dura por um tempo, eu raramente seria grato por ela,
se é que seria; mas quando sei que aqueles que Deus salva, Ele os salva com uma
salvação eterna, quando sei que Ele lhes dá uma justiça eterna, quando eu sei
que Ele os assenta em uma fundação eterna de amor eterno, e que Ele os trará ao
Seu reino eterno, oh, então me admiro, e me surpreendo pelo fato de uma bênção
tal como esta tenha, em algum momento, sido dada a mim!
Suponho
que haja algumas pessoas cujas mentes naturalmente se inclinam em direção à
doutrina do livre-arbítrio. Eu posso somente dizer que a minha se inclina
naturalmente em direção à doutrina da graça soberana. Algumas vezes, quando
vejo algumas das piores personalidades na rua, eu sinto como se meu coração
devesse jorrar em lágrimas de gratidão, porque se Deus me tivesse deixado só e
não me tivesse tocado por Sua graça, que grande pecador eu teria sido! Eu teria
ido aos extremos do pecado, mergulhado nas maiores profundezas do mal, também
não teria reprimido qualquer vício ou loucura se Deus não me tivesse
restringido. Eu sinto que eu teria sido o próprio rei dos pecadores, se Deus me
tivesse deixado só.
Eu
não consigo entender a razão pela qual sou salvo, exceto sobre a base de que
Deus queria que isto fosse assim. Eu não posso, se olhar sinceramente,
descobrir qualquer tipo de razão em mim mesmo pela qual eu deva ser um
participante da graça Divina. Se não estou neste momento sem Cristo, é somente
porque Cristo Jesus tem Sua vontade para comigo, e que esta vontade é que eu
deveria estar com Ele onde Ele estiver, e que deveria partilhar da Sua glória.
Não posso por a coroa em nenhum outro lugar exceto sobre a cabeça Daquele cuja
poderosa graça tem me salvado de seguir abaixo para o abismo. Foi Ele que
transformou meu coração, e me colocou de joelhos diante de Si.
Posso
bem me lembrar da maneira pela qual eu aprendi as doutrinas da graça em um
único instante. Nascido, como todos nós somos por natureza, um arminiano, ainda
cria nas velhas coisas que tinha ouvido continuamente do púlpito, e não via a
graça de Deus. Quando estava vindo a Cristo, pensei estar fazendo aquilo tudo
por mim mesmo, e ainda que buscasse o Senhor sinceramente, não tinha idéia de
que o Senhor estava me buscando. Não penso que o novo convertido esteja, a
princípio, consciente disto. Eu posso relembrar o dia e a hora exatos em que
pela primeira vez recebi aquelas verdades em minha própria alma, quando elas
foram, como diz John Bunyan, gravadas em meu coração como com um ferro em
brasa; e eu posso recompor como me senti quando cresci repentinamente de um
bebê para um homem que havia feito progressos no conhecimento das Escrituras,
por ter encontrado, de uma vez por todas, a chave para a verdade de Deus.
Em
uma noite de um dia de semana, quando estava sentado na casa de Deus, não
estava pensando muito sobre o sermão do pregador, porque não cria nele. Um
pensamento me tocou: "Como você veio a ser um Cristão?" Eu vi o
Senhor. "Mas como você veio a buscar o Senhor?" A verdade lampejou
por minha mente em um momento, eu não poderia tê-lo buscado a menos que tivesse
havido alguma influência prévia em minha mente para me fazer buscá-Lo. Eu orei,
pensei eu, mas quando perguntei a mim mesmo, como eu vim a orar? Fui induzido a
orar pela leitura das Escrituras. Como eu vim a ler as Escrituras? Eu as havia
lido, mas o que me levou a assim proceder? Então em um instante, eu vi que Deus
estava na base disto tudo, e que Ele foi o Autor da minha fé, e assim toda a
doutrina da graça se tornou acessível a mim, e desta doutrina eu não me afastei
até hoje, e desejo fazer desta, a minha confissão perpétua: "Eu atribuo
minha conversão inteiramente a Deus".
Certa
vez compareci a um culto aonde o texto veio a ser: "[Ele] escolherá para
nós a nossa herança"1 e o bom homem que ocupou o púlpito era mais do
que apenas um pouco arminiano. Por esta razão, quando começou, ele disse:
"Esta passagem se refere inteiramente à nossa herança temporal, não tem
nada a ver com nosso destino eterno, porque", disse ele, "nós não
queremos que Cristo faça por nós a escolha do Céu ou do inferno. Isto é tão
claro e direto, que cada homem que tenha um grão de senso comum irá escolher o
Céu, e nenhuma pessoa será tão desajuizada que escolha o inferno. Não temos
qualquer necessidade de alguma inteligência superior, ou de qualquer grande
Ser, para escolher Céu ou inferno por nós. Isto é deixado para o nosso próprio
livre-arbítrio, e temos bastante sabedoria dando-nos meios suficientemente
corretos para julgar por nós mesmos," e, portanto, como ele muito
logicamente inferiu, não há necessidade de Jesus Cristo, ou de qualquer outro,
fazer a escolha por nós. Nós podemos escolher a herança por nós mesmos sem
qualquer assistência. "Ah!" eu pensei, "mas, meu bom irmão, pode
ser mesmo verdade que nós podemos, mas penso que precisamos querer algo mais
que o senso comum antes que possamos escolher corretamente".
Primeiro,
deixe-me perguntar, não devemos todos nós admitir uma soberana Providência, e a
designação da mão do SENHOR, como os meios através dos quais nós viemos a este
mundo? Aqueles homens que pensam que, depois de tudo, nós somos deixados ao
nosso próprio livre-arbítrio para escolher este ou aquele para direcionar os
nossos passos, deve admitir que nossa entrada neste mundo não aconteceu por
nossa própria vontade, mas que Deus teve, naquela hora, que escolher por nós.
Que circunstâncias foram aquelas, sob de nosso controle, que nos direcionaram a
eleger certas pessoas como sendo nossos pais? Tivemos nós alguma coisa a ver
com isto? Não foi o próprio Deus que determinou nossos pais, nosso local de
nascimento, e amigos?
John
Newton costumava contar uma parábola sobre uma boa mulher que, de modo a provar
a doutrina da eleição, dizia: "Ah! meu caro, o Senhor deve ter me amado
antes de eu nascer, ou caso contrário Ele não teria visto nada em mim para amar
depois". Estou certo que é verdade no meu caso; Eu creio na doutrina da
eleição, porque estou bem certo que, se Deus não me tivesse escolhido, eu nunca
O teria escolhido; e tenho certeza que Ele me escolheu antes de eu nascer, ou
caso contrário Ele nunca teria me escolhido depois; e Ele deve ter me eleito
por razões desconhecidas por mim, porque eu nunca pude encontrar qualquer razão
em mim mesmo pela qual Ele devesse me olhar com especial amor.
Se
seria admirável ver um rio brotar da terra já crescido, tanto mais seria olhar
pasmado para uma vasta fonte da qual todos os rios da terra saíssem borbulhando
de uma só vez; um milhão deles nascendo em um só nascimento? Que visão haveria
de ser! Quem pode concebê-la. E ainda assim o amor de Deus é aquela fonte,
formando cada um dos rios de misericórdia, os quais têm sempre satisfeito nosso
povo com todos os rios de graça durante o tempo, e de glória depois de subirem.
Minh'alma, permaneça naquele manancial sagrado, e adore e exalte para todo o
sempre a Deus, nosso Pai, que tem nos amado! Bem no início, quando este grande
universo estava na mente de Deus, como florestas não nascidas na semente do
carvalho; muito antes que os ecos acordassem os ermos; antes que as montanhas
fossem geradas; e muito antes que a luz rompesse pelo céu, Deus amou estas
criaturas escolhidas. Antes que houvesse qualquer ser criado, quando o éter
ainda não havia sido agitado pelas asas do anjos, quando o próprio espaço ainda
não tinha existência, quando não havia nada exceto Deus somente, mesmo então,
naquela solidão de Deidade, e naquela penetrante quietude e profundidade, Seu
coração se moveu com amor por seus escolhidos. Seus nomes estavam escritos em Seu
coração, e então eram eles queridos de Sua alma. Jesus amou Seu povo antes da
fundação do mundo, mesmo da eternidade! E quando Ele me chamou por Sua graça,
me disse: "Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te
atraí"2.
Se
qualquer um me perguntasse o que eu entendo por um Calvinista, eu responderia:
"Ele é alguém que diz: Salvação do Senhor". Eu não consigo encontrar
nas Escrituras nenhuma outra doutrina além desta. É a essência da Bíblia.
"Só ele é a minha rocha e a minha salvação"3. Me diga qualquer coisa contrária a esta verdade, e
será uma heresia; diga-me uma heresia, e eu acharei sua essência aqui: que ela
se afastou desta grande, desta fundamental, desta firme verdade, "Deus é
minha rocha e minha salvação".
Qual
é a heresia de Roma, além da adição de algo aos perfeitos méritos de Jesus
Cristo, o acréscimo de obras da carne, para auxiliar em nossa justificação? E
qual é a heresia do arminianismo além de adicionar algo à obra do Redentor?
Cada heresia, se trazida à pedra de toque, irá se descobrir aqui.
Eu
tenho minha própria opinião particular de que não há tal coisa como pregar
Cristo e Ele crucificado, a menos que nós preguemos que nos dias de hoje isto é
chamado de Calvinismo. É um apelido chamar a isto de Calvinismo; o Calvinismo é
o evangelho, e nada mais. Eu não creio que podemos pregar o evangelho, se não
pregarmos a justificação pela fé, sem obras; nem sem pregarmos a soberania de
Deus e Sua dispensação de graça; nem sem exaltarmos a eleição, pelo
inalterável, eterno, imutável, conquistador amor do SENHOR; nem penso que
podemos pregar o evangelho, a menos que o baseemos sobre a especial e
particular redenção de Seu povo eleito e escolhido o qual Cristo formou sobre a
cruz; nem posso eu compreender um evangelho que deixa santos decaírem após
serem chamados, e sujeitar os filhos de Deus a serem queimados no fogo da
condenação após terem uma vez crido em Jesus. Tal evangelho eu abomino.
Não
há alma viva que defenda mais firmemente as doutrinas da graça que eu, e se
algum homem me pergunta se porventura me envergonho de ser chamado Calvinista,
respondo que eu não quero ser chamado de nada além de Cristão; mas se você me
perguntar, eu defendo a visão doutrinária que foi defendida por João Calvino,
eu replico, estou no centro de sua defesa, e estou feliz por professá-la.
Mas,
longe de mim, sequer imaginar que Sião não contém nada além de Cristãos
Calvinistas dentro de seus muros, ou que não há ninguém salvo que não defenda
nossa visão. Creio que há multidões de homens que não conseguem ver estas
verdades, ou, pelo menos, não conseguem vê-las do modo em que nós as colocamos,
mas que não obstante, têm recebido a Cristo como seu Salvador, e são tão
queridos do coração do Deus de graça como o mais ruidoso Calvinista dentro ou
fora do Céu.
Frequentemente
é dito que estas doutrinas nas quais nós cremos têm uma tendência de nos levar
ao pecado. Eu tenho ouvido isto ser declarado muito positivamente: que aquelas
grandes doutrinas que amamos, e que encontramos nas Escrituras, são
licenciosas. Não sei quem terá a audácia de fazer esta afirmação, quando
considerar que os mais santos dentre os homens têm crido nelas. Pergunto ao
homem que se atreve a dizer que o Calvinismo é uma religião licenciosa, o que
ele pensa do caráter de Agostinho, ou de Calvino, ou de Whitefield, que em
sucessivas eras foram grandes expoentes do sistema da graça; ou o que diria dos
Puritanos, cujas obras estão cheias delas? Se um homem tivesse sido um
Arminiano naqueles dias, teria sido considerado o mais vil herege vivente, mas
agora nós somos vistos como hereges, e eles como ortodoxos.
Nós
temos retornado à velha escola; nós podemos traçar nossa linhagem desde os
apóstolos. É aquele veio de livre-graça, correndo através da pregação de
Batistas, os quais nos têm salvado como denominação. Não é por isto que nós não
podemos permanecer onde estamos hoje. Nós podemos correr uma linha dourada até
o próprio Jesus Cristo, através de uma santa sucessão de vigorosos pais, todos
os quais defenderam estas gloriosas verdades; e podemos perguntar a seu
respeito: "Onde você encontraria homens melhores e mais consagrados no mundo?".
Nenhuma doutrina é tão planejada para preservar o homem do pecado quanto a
doutrina da graça de Deus. Aqueles que a têm chamado de "doutrina
licenciosa" não sabem nada a seu respeito. Coisas pobres da ignorância,
eles mal souberam que seu próprio material ruim foi a mais licenciosa doutrina
sob o céu. Se eles conhecessem a graça de Deus em verdade, eles logo iriam ver
que não houve nada que preservasse mais da queda que o conhecimento de que
somos eleitos de Deus desde a fundação do mundo. Não há nada como a crença na
perseverança eterna, e na imutabilidade da afeição de meu Pai, que possa me
manter mais perto Dele, pela simples razão da gratidão. Nada faz um homem mais
virtuoso que a crença na verdade. Uma mentira doutrinária irá logo produzir uma
prática mentirosa. Um homem não pode ter uma crença errada sem em algum momento
futuro ter uma vida errônea. Eu creio que uma coisa naturalmente leva à outra.
De
todos os homens, os que têm a mais desinteressada piedade, a mais sublime
reverência, a mais ardente devoção, são aqueles que crêem que são salvos pela
graça, sem obras, através da fé, e não de si mesmos, a qual é dom de Deus.4
Os
Cristãos devem ter cautela, e ver que isto sempre é assim, a fim de que por
quaisquer meios Cristo não seja novamente crucificado, e exposto ao vitupério.
Tradução: Walter Andrade
Campelo

O Verdadeiro Evangelho
Muito Bom!
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